domingo, 8 de janeiro de 2017

Quando pequena eu tinha o sonho de ser desenhista. Dizia pro mundo todinho que minha profissão se ocuparia de desenhar os desenhos mais bonitos, mais incríveis da face da Terra. Eu não me importava se ser desenhista não representasse nada de tão importante assim pra sociedade que a gente vive. Desenhava até muito bem para minha idade (eu achava). Roubava uns lápis Faber Castell de meu irmão, eram tão macios escorregando na superfície branca do papel... Ser desenhista, ser desenhista... Eu pensava que daria certo. Fui crescendo e a Realidade começou a me perguntar: "para que vai te servir ser desenhista, menina? Desenhar vai te trazer dinheiro? Para que serve um desenho? Arte? Arte vai encher tua barriga, criatura?" Os desenhos não enchiam minha barriga, mas o branco do papel era a minha alma, sedenta de cor e forma, que eu passava para a folha. A fome que eu tinha era outra. Que eu tinha ou ainda tenho? Não será ela que permanece cutucando minhas tripas e me causando dores intestinais constantes, me secando a goela, me atiçando por entre as pernas, me roçando o pé do ouvido? As dores de garganta me acompanham durante toda a vida, virá um câncer em breve? Um caroço? Uma doença? Um distúrbio? Ou seria apenas uma opinião nunca dita, um grito abafado ou uma declaração engagadamente tímida? Cantora morreu porque não falava dirá a manchete no Jornal?

domingo, 1 de janeiro de 2017


Aquele cacto estava seco, verde-morte, espinhos murchos. Findava-se ali, no alto daquela pedra, a sua resistência teimosa contra a quentura do Sertão. Sua feiúra me incomodou e me fez querer cuidar dele. Como também me fez querer cuidar daquelas pessoas de lá. Não saía uma reclamação sequer de suas bocas. Foram dias que não existiram, um intervalo de tempo no Inferno, no qual eu não senti uma dor sequer na alma. Dias que não cabem nos ponteiros do relógio. Parecia que o infinito era a gente. Meu corpo e minh'alma receberam beijo e carinho de uma moça que eu nunca tinha visto na vida e os cuidados de uma amiga cheia de poesia. Mas a feiúra daquele cacto me incomodou mesmo. É tão frágil viver....